A obesidade tem tido um crescimento epidémico na nossa população. Este facto ameaçador tem sido bem documentado através dos media quer locais quer nacionais. Cada vez mais os médicos de família bem como os cirurgiões são submetidos a maiores pressões na tentativa de combater este flagelo quer médica quer cirurgicamente aos doentes que procuram uma longa e eficaz perda de peso. A intervenção cirúrgica é indiscutivelmente a forma de tratamento da obesidade mórbida mais eficaz e duradoira, a cirurgia bariátrica representa uma disciplina única por várias razões, a primeira das quais é que a cirurgia bariátrica tem como fundamento a tentativa de alterar comportamentos, bem como a fisiologia, ao invés das outras cirurgias reconstrutivas ou de ressecção, além disso o seu sucesso está dependente da educação do paciente e da sua aderência às alterações comportamentais que a cirurgia impõe. Os doentes com obesidade mórbida possuem muitas vezes múltiplos diagnósticos porque esta é uma patologia que afecta quase todos os sistemas do organismo e, os cirurgiões que tratam esta patologia rapidamente concluiram que é impossível realizar este tratamento sem ser através de um programa compreensivo multidisciplinar desenvolvido por um grupo de pessoas diversificado e dedicado da área da saúde, que possa avaliar os doentes, bem como prepará-los quer mental quer fisicamente para a cirurgia e as alterações ao estilo de vida que lhe vão ser pedidas. Para tal, há necessidade de se organizarem programas compreensivos que requerem uma abordagem multidisciplinar e um compromisso institucional grande, levando à formação de unidades de tratamento da obesidade ou unidades bariátricas, capazes de ter um papel educacional e de desenvolver estratégias de suporte aos doentes.
A primeira tarefa de uma unidade de cirurgia bariátrica é ser capaz de desenvolver critérios de selecção para cirurgia bariátrica:
Pacientes com IMC >/= 40, ou 35 com comorbilidades são geralmente elegíveis para cirurgia. Tentativas várias de emagrecimento devem ter sido realizadas no passado supervisionadas com regimes dietéticos, exercício ou medicamentos. No entanto teremos que pensar que alguns doentes com IMC < a 35 poderão ser candidatos, no entanto deverão ser discutidos por toda a equipe.
Embora a idade compreendida entre os 18 e os 60 anos não ponham qualquer objecção ao tratamento cirúrgico, estudos há que nos doentes abaixo dos 18 e acima dos 60 anos depois de devidamente analisados não os podemos contraindicar para cirurgia, portanto a idade por si só não é uma objecção à realização de cirurgia.
Após cirurgia um follow-up apertado e uma abordagem multidisciplinar são necessários para o sucesso de um programa desta envergadura. O conhecimento pelos médicos de família do programa, a compreensão do que significa a cirurgia bariátrica, como se realiza e o que se espera dela é fundamental para que estes programas tenham sucesso, pois serão sempre eles os primeiros a atender este paciente e a dizer-lhes o que necessitam. Claramente que um médico bem informado, ajuda à cooperação do paciente e à melhoria dos resultados.
Componentes de uma unidade de cirurgia bariátrica
Team Profissional Cirurgia Bariátrica
Colaboração activa com múltiplas disciplinas médicas incluindo: Nutrição, endocrinologia/medicina Interna, Psicologia, Anestesia, Psiquiatria, Reabilitação.
Uma abordagem multidisciplinar é essencial, pois além da consulta de nutrição e psicologia, dependendo das doenças associadas que ele possua, poderá ter que ser avaliado por várias especialidades como Psiquiatria, Medicina Interna, Cardiologista, Pneumologista, Reabilitação e outros, no entanto devem ser especialistas dedicados em particular a este tipo de doentes.
O papel principal da multidisciplinaridade, além da utilização do conhecimento de cada um dos componentes, é unir os esforços de todos numa selecção óptima dos pacientes, na sua educação e no seu manuseamento.
Avaliação Dietética
O objectivo principal de qualquer cirurgia bariátrica é conseguir um balanço energético negativo sem comprometer a absorção de proteínas e micronutrientes.
Os vários tipos de cirurgia conseguem este balanço entre perda de peso e malabsorção em graus diferentes. Os processos restritivos ( banda gástrica, sleeve e bypass gástrico) são aqueles que conseguem este balanço com menos problemas provocados pela malabsorção. Qualquer que seja o processo cirúrgico a utilizar, é mandatória uma educação nutricional pré-operatória e follow-up pós-operatório.
Os regimes dietéticos devem conter os requisitos diários de proteínas. Os nutricionistas também devem ensinar novas técnicas de mastigar e de engolir os alimentos pois são fundamentais para que tudo corra devidamente. Devem ser avaliadas também as necessidades diárias de viatminas.
Também deve ser pesquisada a capacidade do doente cumprir com as alterações dietéticas impostas pela cirurgia. Os doentes devem ser motivados para seguirem as alterações dietéticas impostas e conhecer os riscos da não aderência.
Avaliação Psicológica
O suporte psicológica para o doente morbidamente obeso é essencial. Estes doentes possuem muitas vezes depressão, ansiedade ou outras condições relacionadas com o stress. Há muitas vezes problemas associados com a imagem corporal, com baixa auto.estima. Além de oferecerem um suporte valiosíssimo, os psicólogos avaliam o estado mental do doente, e aconselham-no em relação às aletrações requeridas durante a sua vida após a cirurgia.
A educação dos pacientes deve ser enfatizada em cada programa bariátrico. O conhecimento do doente, a adaptação psicológica e a motivação possuem um papel crucial em se conseguir um bom resultado. A intervenção psicológica é útil em se conseguir uma estabilidade emocional e bem estar ao doente.
Consultas de Especialidades
Doenças médicas estão frequentemente associadas com a obesidade mórbida, incluindo cardiovascular, pulmonar, endócrina, metabólica, hematológicas e muitas outras, razão pela qual os especialistas devem estar treinados e familiarizados com as consequências fisiopatológicas especificas dos doentes com obesidade mórbida. Geralmente o seu papel é determinar com um certo grau de confiança a elegibilidade dos candidatos para cirurgia. O papel principal é preparar os doentes para anestesia geral em particular a funç~so cardíaca e pulmonar.
Uma avaliação extensa é mandatória em cada caso.
Anestesia para cirurgia bariátrica
Anestesistas encarregues de manusear doentes bariátricos devem ser experientes em tratar condições médicas agudas ameaçadoras da vida dos pacientes tais como vias aéreas difíceis, síndrome de hipoventilação, apneia de sono, tromboembolismo pulmonar, entre muitas outras, mas de facto a alteração mais frequente são as vias aéreas difíceis que são típicas desta população.
Workshops pré-operatórias e grupos de suporte
Uma das áreas importantes num programa bariátrico são os grupos de suporte. Nestes pequenos encontros os pacientes são encorajados a discutir a sua situação clínica, quer seja de sucesso ou não com outros pacientes ou mesmo com o staff que os acompanha. É muito importante que nestes workshops se envolvam a família dos pacientes pois aqui tomam conhecimento com todo o projecto proposto para a perda de peso e assim se familiarizam com a cirurgia e as alterações que vai trazer à vida dos pacientes e a eles próprios.
Os grupos de suporte são oferecidos em particular no pós operatório a doentes submetidos a cirurgia bariátrica.
O que se pretende com a educação pré-operatória dos pacientes?
• Encorajar a concordância dos doentes e elogiar o seu sucesso
• Preparar os pacientes para a vida após cirurgia, incluindo nutrição, dieta e exercício
• Identificar os problemas que possam ter os doentes
• Identificar e ajudar o doente a desenvolver novas formas de alimentação
• Encorajar a participação dos doentes num fórum ou grupo onde outros compreendam as alterações sofridas e as dificuldades associadas a essa mudança
• Criar uma atmosfera saudável e amistosa onde os doentes possam trazer os seus familiares mais directos bem como os amigos
• Dar uma oportunidade a candidatos a cirurgia a aprender com outros doentes operados o que lhe poderá acontecer
Todos estes requisitos para se obter uma unidade de terapêutica da obesidade grave só se conseguem se houver por parte da Unidade Hospitalar um forte compromisso para abraçar um projecto desta envergadura, pois além das pessoas singulares, o projecto só funciona se houver uma aglutinação de todas as pessoas envolvidas no projecto, pois ele terá que ser avaliado e, para tal somente com um processo de registo electrónico se consegue saber até que ponto as medidas que estamos a tomar serão ou não correctas.
Como já se disse, é fundamental um programa de follow-up destes pacientes, que deverá ser o mais agressivo possível, uma vez que por vezes os doentes são difíceis de manter num programa em que o comprometimento é feito para toda a vida, assim pensamos ser essencial para este follow-up a possibilidade da existência de formas de contacto com os pacientes periódicas e, assim pensamos também que a unidade de tratamento da obesidade grave deverá fazer este contacto de uma forma regular com os seus doentes que poderá ser via telefónica e ao mesmo tempo ter acesso ao registo informático para que todos os dados fiquem registados.




